sábado, 12 de novembro de 2011

A Hora da Estrela, de Clarice Lispector

ANÁLISE DA OBRA

Estrutura da obra

É uma obra composta de três histórias que se entrelaçam e que são marcadas, principalmente, por duas características fundamentais da produção da autora: originalidade de estilo e profundidade psicológica.

As três histórias que se entrelaçam:

1. A metanarrativa - Rodrigo S. M. conta a história de Macabéa: Esta é a narrativa central da obra: o escritor Rodrigo S.M. conta a história de Macabéa, uma nordestina que ele viu, de relance, na rua.2. A identificação da história do narrador com a da personagem - Rodrigo S.M. conta a história dele mesmo: esta narrativa dá-se sob a forma do encaixe, paralela à história de Macabéa. Está presente por toda a narrativa sob a forma de comentários e desvendamentos do narrador que se mostra, se oculta e se exibe diante dos nossos olhos. Se por um lado, ele vê a jovem como alguém que merece amor, piedade e até um pouco de raiva, por sua patética alienação, por outro lado, ele estabelece com ela um vínculo mais profundo, que é o da comum condição humana. Esta identidade, que ultrapassa as questões de classe, de gênero e de consciência de mundo, é um elemento de grande significação no romance, Rodrigo e Macabéa se confundem.
3. A vida de Macabéa - O narrador conta como tece a narrativa.
Narrador e protagonista, inseridos em uma escrita descontínua e imprevisível, permitem ao leitor a reflexão sobre uma época de transição, de incoerência, como um movimento em busca de uma nova estruturação da obra literária similar à insegurança, à ansiedade e ao sofrimento. O tema é oferecido, socializando a possibilidade de ruptura.
O narrador revela seu amor pela personagem principal e sofre com a sua desumanização, mas, também, critica-a por não reagir perante a vida.

Linguagem:

A linguagem narrativa de Clarice é, às vezes, intensamente lírica, apresentando muitas figuras de estilos, como: metáforas, comparações, paradoxos. Há também construção de frases inconclusas e outros desvios da sintaxe convencional, além da criação de alguns neologismos. O narrador discute a importância da palavra e o fazer narrativo.

Foco narrativo

O recurso usado por Clarice Lispector é o narrador-personagem, pois conforme nos faz conhecer a protagonista, também nos faz conhecê-lo. Ele escreve para se compreender. É um marginalizado conforme lemos: "Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar pra mim na terra dos homens". Quanto à sua relação com Macabéa, ele declara amá-la e compreendê-la, embora faça contínuas interrogações sobre ela e embora pareça apenas acompanhando a trajetória dela, sem saber exatamente o que lhe vai acontecer e torcendo para que não lhe aconteça o pior.
Macabéa, a protagonista, é uma invenção do narrador com a qual se identifica e com ela morre. A personagem é criada de forma onisciente (tudo sabe) e onipresente (tudo pode). Faz da vida dela um aprendizado da morte. A morte foi a hora de estrela.

Espaço / Tempo

O Rio de Janeiro é o espaço. Ocorre que o espaço físico, externo, não importa muito nesta história. O "lado de dentro" das criaturas é o que interessa aos intimistas.
Pelos indícios que o narrador nos oferece, o tempo é época em que Marylin Monroe já havia morrido - possivelmente a década de 60 em seu fim ou a de 70 em seus começos - mas faz ainda um grande sucesso como mito que povoa a cabeça e os sonhos de Macabéa.
Embora a história de Macabea seja profundamente dramática, a narrativa é toda permeada de muito humor e ironia. O próprio nome da protagonista constitui-se numa grande ironia.

Personagens

Macabéa: Alagoana, 19 anos e foi criada por uma tia beata que batia nela (sobre a cabeça, com força); completamente inconsciente, raramente percebe o que há à sua volta. A principal característica de Macabéa é a sua completa alienação. Ela não sabe nada de nada. Feia, mora numa pensão em companhia de quatro moças que são balconistas nas Lojas Americanas (Maria da Penha, Maria da Graça, Maria José e Maria). Macabéa recebe o apelido de Maca e é a protagonista da história. Possivelmente o nome Macabéa seja uma alusão aos macabeus bíblicos, sete ao todo, teimosos, criaturas destemidas demais no enfrentamento do mundo; a alusão, no entanto, faz-se pelo lado do avesso, pois Macabéa é o inverso deles.

Olímpico: Olímpico se apresentava como Olímpico de Jesus Moreira Chaves. Trabalhava numa metalúrgica e não se classificava como "operário": era um "metalúrgico". Ambicioso, orgulhoso e matara um homem antes de migrar da Paraíba. Queria ser muito rico, um dia; e um dia queria também ser deputado. Um secreto desejo era ser toureiro, gostava de ver sangue.

Rodrigo S. M.: Narrador-personagem da história. Ele tem domínio absoluto sobre o que escreve. Inclusive sobre a morte de Macabéa, no final.

Glória: Filha de um açougueiro, nascida e criada no Rio de Janeiro, Glória rouba Olímpico de Macabéa. Tem um quê de selvagem, cheia de corpo, é esperta, atenta ao mundo.

Madame Carlota: É a mulher de Olaria que porá as cartas do baralho para "ler a sorte"de Macabéa. Contará que foi prostituta quando jovem, que depois montou uma casa de mulheres e ganhou muito dinheiro com isso. Come bombons, diz que é fã de Jesus Cristo e impressiona Macabéa. Na verdade, Madame Carlota é uma enganadora vulgar. As quatro Marias que moram com Macabéa no mesmo quarto, o médico que a atende e diagnostica a gravidade da tuberculose e o chefe, seu Raimundo, que reluta em mandá-la embora.

Enredo

O enredo de A hora da Estrela não segue uma ordem linear: há flashbacks iluminando o passado, há idas e vindas do passado para o presente e vice-versa. Além da alinearidade, há pelo menos três histórias encaixadas que se revezam diante dos nossos olhos de leitor:

Macabéa (Maca) foi criada por uma tia beata, após a morte dos pais quando tinha dois anos de idade. Acumula em seu corpo franzino a herança do sertão, ou seja, todas as formas de repressão cultural, o que a deixa alheia de si e da sociedade. Segundo o narrador, ela nunca se deu conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável.
Ignorava até mesmo porque se deslocara de Alagoas até o Rio de Janeiro, onde passou a viver com mais quatro colegas na Rua do Acre. Macabéa trabalha como datilógrafa numa firma de representantes de roldanas, que fica na Rua do Lavradio. Tem por hábito ouvir a Rádio Relógio, especializada em dizer as horas e divulgar anúncios, talvez identificando com o apresentador a escassez de linguagem que a converte num ser totalmente inverossímil no mundo em que procura sobreviver. Tinha como alvo de admiração a atriz norte-americana Marilyn Monroe, o símbolo social inculcado pelas superproduções de Hollywood na década de 1950.
Macabéa recebe de seu chefe, Raimundo Silveira, por quem ela estava secretamente apaixonada, o aviso de que será despedida por incompetência. Como Macabéa aceita o fato com enorme humildade, o chefe se compadece e resolve não despedi-la imediatamente.
Seu namorado, Olímpico de Jesus, era nordestino também. Por não ter nada que ajudasse Olímpico a progredir, ela o perde para Glória, que possuía atrativos materiais que ele ambicionava.
Glória, com certo sentimento de culpa por ter roubado o namorado da colega, sugere a Macabéa que vá a uma cartomante, sua conhecida. Para isso, empresta-lhe dinheiro e diz-lhe que a mulher, Madame Carlota, era tão boa, que poderia até indicar-lhe o jeito de arranjar outro namorado. Macabéa vai, então, à cartomante, que, primeiro, lhe faz confidências sobre seu passado de prostituta; depois, após constatar que a nordestina era muito infeliz, prediz-lhe um futuro maravilhoso, já que ela deveria casar-se com um belo homem loiro e rico - Hans - que lhe daria muito luxo e amor.
Macabéa sai da casa de Madame Carlota 'grávida de futuro', encantada com a felicidade que a cartomante lhe garantira e que ela já começava a sentir. Então, logo ao descer a calçada para atravessar a rua, é atropelada por um luxuoso Mercedes Benz amarelo. Esta é a hora da estrela de cinema, onde ela vai ser "tão grande como um cavalo morto".
Ao ser atropelada, Macabéa descobre a sua essência: “Hoje, pensou ela, hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci”. Há uma situação paradoxal: ela só nasce, ou seja, só chega a ter consciência de si mesma, na hora de sua morte. Por isso antes de morrer repete sem cessar: “Eu sou, eu sou, eu sou, eu sou”. Por ter definido a sua existência é que Macabéa pronuncia uma frase que nenhum dos transeuntes entende: “Quanto ao futuro.” (...) “Nesta hora exata Macabéa sente um fundo enjôo de estômago e quase vomitou, queria vomitar o que não é corpo, vomitar algo luminoso. Estrela de mil pontas.”
Com ela morre também o narrador, identificado com a escrita do romance que se acaba.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

EXERCÍCIO DE FIXAÇÃO (Regência Verbal)

I – Aponte o sentido dos verbos em destaque nos exercícios:

No campo, sempre aspirava um ar puro.
Aspiramos a uma boa classificação.
No ano passado, assistimos a um importante jogo de futebol.
O doente que o médico assistiu não passava bem.
Assiste ao trabalhador o direito de férias.
O presidente assiste em Brasília.
O professor chamou os alunos.
Chamei-o de covarde.
Seu argumento não procede.
Severino procede de Frankfurt.
Procederemos à distribuição das provas.
Quero o lápis que você pegou.
Quero a meus amigos.
O atirador visou o alvo.
O gerente visou o cheque.
O cargo a que visamos é disputado por todos.
II – Complete, usando o pronome adequado:

1) Você pagou a dívida?
- Sim, paguei-......
2) Você pagou ao homem?
- Sim, paguei-.....
3) Você ama este rapaz?
- Não, não ....... amo.
4) Isto pertence a esta pessoa?
- Não, isto não ...... pertence.
5) Você cumprimentou o professor?
- Sim cumprimentei-.......
6) Você obedece a este homem?
- Sim, obedeço-.......
7) Você quer a seus amigos?
- Sim, quero-......
8) Você quer o livro?
- Sim, quero-.....
9) Você assistiu a este filme?
- Sim, assisti ...........
10) Você aspira a este cargo?
- Sim, aspiro ..........

III – Reescreva as frases abaixo, corrigindo-as:

1) Um alto cargo era visado pelos funcionários da empresa.
2) Uma boa palestra foi assistida por todos os alunos.
3) Uma boa faculdade é aspirada por nós.
4) Sentei e cai da cadeira.
5) Assisti e gostei do filme.
6) Entrou e saiu da sala.
IV – Complete os pontilhados, usando a preposição adequada, se necessário:
1) A desatenção do motorista implicou ....acidente com vítimas.
2) Sempre obedecia .... os mais velhos.
3) Aspiramos ..... o perfume das flores.
4) O cargo ....que aspiramos é disputado por todos.
5) O filme ... que assisti era nacional.
6) É um direito que assisti ... os empregados.
7) Esqueci ..... o documento.
8) Esqueci-me ..... o documento.
9) As pessoas lembraram com tristeza ..... o ocorrido.
10) As pessoas se lembraram com tristeza ..... o ocorrido.
11) Visamos ..... uma boa classificação nos exames.
12) Este exercício é acessível ..... todos os alunos.
13) Este problema é análogo .... outro.
14) Moro num apartamento contíguo .... seu.
15) Ele estava descontente ....a nota.
16) Estamos habituados ..... resolver os problemas.
17) Sua atitude é incompatível .... o ambiente.
18) O pai era liberal .... os filhos.
19) Este remédio é nocivo ..... organismo.
20) Aquele artista era versado ..... música.
REVISÃO – COLOCAÇÃO PRONOMINAL
1. Observando as recomendações quanto à colocação dos pronomes oblíquos átonos, pode-se afirmar que está correta a frase:

O dinheiro que entreguei-lhe era meu.
No curso de Pedagogia estudaria-se provavelmente História da Educação.
Nunca enganamo-nos a esse respeito.
Em tempos de vacas magras, compra-se o indispensável.
Caso procurem-me, diga que viajei.

2. Consoante as normas da língua culta vigente, o pronome átono está colocado com ERRO em:

As reuniões tornavam-se eventos de grande repercussão.
As reuniões se tornavam eventos de grande repercussão.
As reuniões não se tornariam eventos de grande repercussão.
As reuniões tornariam-se eventos de grande repercussão.
As reuniões tornar-se-ão eventos de grande repercussão.

3. atiram-se-vos, acusam-no são formas corretas de uso de pronomes; em que item a seguir o uso do pronome não obedece às normas vigentes?

Ter-lhe-iam falado a meu respeito?
Tenho prevenido-o várias vezes;
Quem nos dará razão?;
Nunca nos diriam inverdades;
Haviam-no procurado por toda a parte.

4. planejá-la é uma forma verbal com pronome enclítico; a forma que assumiria esse mesmo verbo no futuro do presente do indicativo com pronome mesoclítico, seria:

planeja-la-á;
planejá-la-á;
planejá-la-ia;
planejá-la-a;
planejar-la-á.

5. Assinale dentre as alternativas apresentadas a seguir o único deslocamento do pronome átono que seria considerado incorreto segundo os gramáticos normativos tradicionais.

“ [ ... ] ou o que se determine pelo uso outorgado.” (Art. 1250)
[ ... ] ou o que determine-se pelo uso outorgado.
“ [ ... ] não podendo usá-la senão de acordo com o contrato, [ ... ]” (Art. 1251)
[ ... ] não a podendo usar senão de acordo com o contrato, [ ... ]
“ [ ... ], ainda que se possa atribuir a caso fortuito, [ ... ]” (Art. 1253)
[ ... ], ainda que possa atribuir-se a caso fortuito, [ ... ]
“Se o menor, estando ausente essa pessoa, se viu obrigado a contrair [ ... ]” (Art. 1260, II)
Se o menor, estando ausente essa pessoa, viu-se obrigado a contrair [ ... ]
“ [ ... ]. Mas, em tal caso, a execução do credor não lhes poderá ultrapassar [ ... ]” (Art. 1260, III)
[ ... ]. Mas, em tal caso, a execução do credor não poderá ultrapassar-lhes [ ... ]

6. Alguns termos desfrutam de certa flexibilidade posicional no interior das construções de que participam. Levando em conta as estruturas presentes nos textos de Machado de Assis, assinale dentre as alternativas a seguir aquela em que o deslocamento não é recomendado pelos gramáticos normativos tradicionais.

“que vos deram” / que deram-vos;
“gosto de conhecer-vos” / gosto de vos conhecer;
“recebi e agradeço-vos /recebi e vos agradeço;
“a mim entregue” / entregue a mim;
“incumbiu-me” / me incumbiu.

7. A frase em que, segundo o uso culto escrito, são lícitas tanto a próclise quanto a ênclise do pronome oblíquo átono é:

“afoga-se o corpo em álcool e gordura”;
“no ato de se empanturrar à mesa”;
“Mudemos nós e o Natal”;
“Aquele que se fez pão e vinho”;
“Deixemo-nos, como Maria, engravidar”.

8. De acordo com a norma culta, o resultado da substituição do termo grifado no trecho a seguir por um pronome oblíquo seria: “Vi e suportei os sofrimentos das tropas e não posso mais contribuir para prolongar esses sofrimentos:

para prolongá-los;
para lhes prolongar;
para prolongar eles;
para prolonga-los;
para prolongar-lhes.

9. Indique a colocação indevida do pronome oblíquo:

Vou-te vendo.
Não convidar-te-ei desta vez.
Dais-vos clemência.
Aqui, trabalha-se.
Dizê-lo primeiramente.

10. Sobre os pronomes de tratamento é errado dizer que:

são certas palavras e locuções que valem por verdadeiros pronomes pessoais;
levam o verbo para a 3ª pessoa, embora designem a pessoa a quem se fala (isto é, a 2ª);
não admitem artigo (conseqüentemente crase), exceto Senhor, Senhora e Senhorita;
exigem o pronome na 3ª pessoa do singular, bem como adjetivo e particípio concordando com o sexo da pessoa;
deve-se empregar Vossa para a pessoa de quem se fala, e Sua para a pessoa com quem se fala.

11. Assinale a opção em que há erro de colocação pronominal, de acordo com a norma culta.

A primeira refere-se aos atuais mecanismos públicos e particulares.
São os elementos essenciais da vida, os quais não têm-nos dado a desejada segurança.
Consiste em nossa fraqueza de opormo-nos a uma espécie de movimento neo-feudal.
A sociedade mostra-se perplexa com seu ajuste à eletrônica.
O Estado não se mostra apto para encontrar soluções.

12. Observe o fragmento:
“Mas o que me leva a crer no desaparecimento do bem-te-vi são as mudanças que começo a observar na sua voz. O ano passado, aqui nas mangueiras dos meus simpáticos vizinhos, apareceu um bem-te-vi caprichoso, muito moderno, que se recusava a articular as três sílabas tradicionais do seu nome. Limitava-se a gritar: ‘ ... te vi! ... te vi! ... ’ com a maior irreverência gramatical.”
Cecília Meireles
Em “Limitava-se a gritar: ‘ ... te vi! ... te vi! ... ’ com a maior irreverência gramatical.”, a autora refere-se:

ao uso da linguagem coloquial;
ao uso indevido da pontuação;
à colocação do pronome em próclise;
à colocação do pronome em ênclise;
à articulação incorreta do bem-te-vi.