sábado, 1 de maio de 2010

OBRA: A DEMANDA DO SANTO GRAAL - RESUMO

A Demanda do Santo Graal corresponde, assim, à terceira parte da trilogia. A lenda, de remotas origens célticas, foi inicialmente cantada em verso, tendo Perceval como herói. A volta de 1220, em França, por influxo clerical, opera-se a prosificação da lenda, da autoria presuntiva de Gautier Map, e então Galaaz substitui Perceval.

A lenda, até então de cunho nitidamente pagão, cristianiza-se, passando seus principais símbolos (o Vaso, a Espada, o Escudo, etc.) a assumir valor místico. Com isso, em vez de aventuras marcadas por um realismo profano, tem-se a presença da ascese, traduzida no desprezo do corpo e no culto da vida espiritual, e exercida como processo de experimentação das forças físicas e morais de cada cavaleiro no sentido da Eucaristia, fim último anelado por todos. A Demanda do Santo Graal constitui-se, por isso, numa novela de cavalaria mística e simbólica. Os cavaleiros lutam por chegar à Comunhão sobrenatural, mas só um, Galaaz, a alcança. Homem "escolhido", dotado dum nome de ascendência bíblica (Galaad significa o "puro dos puros", o próprio Messias), simboliza um novo Cristo, ou um Cristo sempre vivo, em peregrinação mística pelo mundo. Próximos dele em grandeza física e moral, situam-seBoorz e Perceval, e mais distantes, embora com seu quinhão de glória, Lancelote, Tristão, Palamades, Erec, Galvão, Ivam, Estor, Morderet, Meraugis e outros.

Em síntese, A Demanda do Santo Graal contém o seguinte: em torno da "távola redonda", em Camelot, reino do Rei Artur, reúnem-se dezenas de cavaleiros. É véspera de Pentecostes. Chega uma donzela à Corte e procura porLancelote do Lago. Saem ambos e vão a uma igreja, onde Lancelote arma Galaaz cavaleiro e regressa com Boorz a Camelot. Um escudeiro anuncia o encontro de maravilhosa espada fincada numa pedra de mármore boiando n'água. Lancelote e os outros tentam arrancá-la debalde. Nisto Galaaz chega sem se fazer anunciar e ocupa a seeda perigosa (= cadeira perigosa) que estava reservada para o cavaleiro "escolhido": das 150 cadeiras, apenas faltava preencher uma, destinada a Tristão. Galaaz vai ao rio e arranca a espada do pedrão . A seguir, entregam-se ao torneio. Surge Tristão para ocupar o último assento vazio. Em meio ao repasto, os cavaleiros são alvoroçados e extasiados com a aérea aparição do Graal ( = cálice), cuja luminosidade sobrenatural os transfigura e alimenta, posto que dure só um breve momento. Galvão sugere que todos saiam à demanda (= à procura) do Santo Graal. No dia seguinte, após ouvirem missa, partem todos, cada qual por seu lado. Daí para a frente, a narração se entrelaça, se emaranha, a fim de acompanhar as desencontradas aventuras dos cavaleiros do Rei Artur, até que, ao cabo, por perecimento ou exaustão, ficam reduzidos a um peque . no número. E Galaaz, em Sarras , na plenitude do ofício religioso, tem o privilégio exclusivo de receber a presença do Santo Vaso, símbolo da Eucaristia, e, portanto, da consagração de uma vida inteira dedicada ao culto das virtudes morais, espirituais e físicas. A novela ainda continua por algumas páginas, com a narrativa do adulterino caso amoroso de Lancelote, pai de Galaaz, e de D. Ginebra, esposa do Rei Artur.

Tudo termina com a morte deste último. Tal excrescência contém o resumo de outra novela. A Morte do Rei Artur, ou La Mort le Roi Artur, novela francesa do século XIII. Justificaria sua presença como apêndice da Demanda o seguinte fato: na intricada selva da matéria cavaleiresca, havia-se formado uma trilogia, intitulada Lancelote em Prosa, que continha o Lancelote, a Demanda e A Morte do Rei Artur. Parece evidente que o tradutor português, ao executar sua tarefa, teve diante dos olhos a segunda e a terceira parte do tríptico, e resolveu resumir a última, certamente por considerá-la desnecessária à compreensão do núcleo episódico dramático da Demanda.

A Demanda corresponde precisamente à reacção da Igreja Católica contra o desvirtuamento da Cavalaria. Os cavaleiros-andantes feudais não raro acabaram por se transformar em indivíduos desocupados, quando não autênticos bandoleiros, vivendo ao sabor do acaso, amedrontando, pilhando, assaltando. A fim de trazê-los à civilização, reconvertendo-os aos bons costumes, o Concílio de Clermont , em 1095, decidiu a organização da primeira Cruzada e a correspondente formação duma cavalaria cristã. Inicia-se uma vasta pregação de ideais de altruísmo e respeito às instituições. A Demanda, cristianizando a lenda pagã do Santo Graal, colabora intimamente com o processo restaurador da Cavalaria andante: caracteriza-se por ser uma novela mística, em que se contém uma especial noção de herói antifeudal, qualificado por seu estoicismo inquebrantável e sua total ânsia da perfeição. Novela a serviço do movimento renovador do espírito cavaleiresco, em que o herói também está a serviço, não mais do senhor feudal mas de sua salvação sobrenatural, uma brisa de teologismo varre-a de ponta a ponta, o que não impede, porém, a existência de circunstanciais jactos líricos e eróticos, nem algumas notas de fantástico ou mágico, em que o real e o imaginário se cruzam de modo surpreendente. Cenas de grande tensão mística contracenam com outras dum realismo vivo e quente, em que a fortaleza de ânimo dos cavaleiros é posta à prova, como, por exemplo, o episódio no castelo do Rei Brutos, em que a filha deste, enegrecida de paixão, penetra de noite nos aposentos de Galaaz (capítulos 106-116).

Novela de alto vigor narrativo e de elevada intenção, acabou por ser o retrato definido da Idade Média mística, e o maior monumento literário que a época nos legou no campo da ficção, porquanto traduz um soberbo ideal de vida expresso de forma artisticamente superior, a ponto de alcançar um grau de perfeição estética não muito frequente na prosa do tempo.
A Demanda só foi publicada inteiramente (embora ainda com truncamentos quem sabe propositados, tendo em vista convicções morais do seu editor) em 1944, no Rio de Janeiro. O manuscrito que lhe serviu de base é o de n .I 2594, existente na Biblioteca Nacional de Viena da Áustria, e corresponde a uma das cópias da tradução e adaptação do original francês, levada a efeito no século XIII, certamente refundida em fins do XIV e princípios do XV.

Massaud Moisés, A Literatura Portuguesa

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